7.11.09

Cordel: resistência e vanguarda II


A construção "complô das elites" contra o cordel no tópico Cordel: resistência e vanguarda" gerou dois ou três comentários conflitantes que solicitaram meu posicionamento quanto ao que lá escrevi. Vou usar a primeira pessoa não como pedantismo, mas como forma de dar paternidade ao escrito, que não corresponde ao pensamento do Poesia Hoje, senão ao autor da afirmação, ou seja, eu mesmo.

Esse complô contra o cordel tem início quando da divisão da poesia em dois tipos: popular e erudita, colocando-se o cordel na primeira partição. Os termos, segundo consenso intelectual, referem-se, o primeiro, à poesia feita pelo povo, e o segundo, à poesia feita pelos letrados, mas não só isso. Há uma carga muito pesada de preconceito nessa alegação. O popular é descuidado esteticamente, não contém o rebuscamento da linguagem erudita, não se prende a estilos de época nem escola literária ou gênero literário. O historiador português M. Viegas Guerreiro denuncia o complô assim:
Massa analfabeta e sem 'cultura', mergulhada nas actividades práticas da vida, que lhe não deixam tempo para reflectir, que arte há-de produzir senão uma arte 'sem arte', irregular, tosca, grosseira? Não a tem julgado de outro modo a aristocracia de poetas e críticos, da Idade Média aos nossos dias, ainda que com algumas excepções não de todo imunes ao tradicional desamor.
Não se pode rotular a poesia dessa forma. A poesia é a poesia e não pertence a classe social.

No Brasil consolidou-se esse pensamento e orquestrou-se a ação: em nenhum manual de literatura brasileira que serve de base para os estudantes de Letras do país se encontrará referência ao cordel ou seus autores. Nem Alfredo Bosi, nem Antonio Candido, nem Nelson Werneck Sodré, nem José Aderaldo Castello, nem Oliveiros Litrento, nem Ronald de Carvalho, nem José Veríssimo. Nem os recentes Carlos Nejar e Ivan Junqueira. Há um silêncio. Mário de Andrade cita uma vez, mas com o ranço do folclore. Só Carlos Drummond de Andrade faz, sem tirar o pé do salão provinciano, um elogio a Leandro Gomes de Barros. Por outro lado, nenhuma, mas nenhuma antologia da poesia nacional traz qualquer texto em cordel. É zero. E todos conhecem a poesia de cordel. Infelizmente se conluiaram em não reconhecer-lhe literariedade.

Esse trabalho ficou reservado aos folcloristas, que caíram em equívocos reproduzidos à exaustão. Filiaram o cordel à tradição oral, quando o cordel é fundamentalmente escrito, não se estabelecendo como a versão escrita do universo oral dos cantadores repentistas do Nordeste. Não é anônimo, tem autoria e é datado. Depois de filiá-lo à poética dos cantadores, acharam por bem dar-lhe uma origem ibérica, coisa paradoxal, pois a literatura de cordel peninsular, além de não ser o prolongamento dos trovadores, jograis ou segreis, é um produto tão diferente do cordel brasileiro que fica difícil encontrar-lhes semelhança. Até noticiaram o fim do cordel com o aparecimento do rádio e da televisão, ofertando ao cordel o papel de "jornal do sertão", ausentando-lhe o perfil literário.

Estabeleceu-se ainda o "analfabetismo" do cordelista. Ou seja para se fazer cordel "autêntico" o poeta tem que ser analfabeto ou semi-analfabeto. Essa suposta característica deu-se no início do cordel, por volta de 1885, quando 90% da população brasileira era analfabeta. Naquela época era o quadro. Os cordelistas, pelo contrário, eram privilegiados e quem ler qualquer biografia da Geração Princesa, a que fundou o cordel, o constatará. Primeiro porque sabiam ler escrever, segundo porque conheciam os clássicos da literatura universal, possuíam conhecimentos tipográficos e viviam exclusivamente da venda de literatura. Silvino Pirauá de Lima era conhecido como o "poeta enciclopédico". Francisco das Chagas Batista lançou dois livros fundamentais para o estudo da poesia no Nordeste. João Martins de Ataíde teve a visão de mercado comprando os direitos autorais da obra completa de Leandro Gomes de Barros. O cordel de hoje tão somente faz juz à sua fundação e seus autores são letrados e tem conhecimento do mercado.

Ainda falando do complô repetimos a observação da professora Márcia Abreu:
O autor que melhor percebe as dificuldades envolvidas na efinição de literatura de cordel é Arnaldo Saraiva, que além de apontar a insuficiência dos conceitos já elaborados, discute o equívoco que consiste em assimilar o conceito de 'cordel' com o de 'literatura popular', como se tem feito muitas vezes em Portugal... Ele contrapõe a ideia de popular, um novo conceito no qual se enquadraria o 'cordel', o de literatura 'marginal/izada', que seria aquela ignorada, esquecida, censurada pelos poderes literários, culturais ou políticos por razões de linguagem ou de produção e circulação no mercado."
Deixamos uma breve bibliografia para quem quiser se aprofundar mais no tema:

ABREU, Márcia. Cordel português/folhetos nordestinos: confrontos — um estudo histórico-comparativo. Campinas: Unicamp, 1993. (Tese de Doutirado)
BATISTA, Francisco das Chagas. Literatura Popular em Verso – Antologia. Tomo IV. Brasília: Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1977.
____________. Cantadores e poetas populares. Parahyba (João Pessoa): Typografia da Popular Editora, 1929.
BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da Literatura de Cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977.
___________. Restituição da autoria de folhetos do catálogo, Tomo I, da Literatura Popular em Verso. In Literatura Popular em Verso – Estudos. Tomo I. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1973.
CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1984. (Reconquista do Brasil, nova série, V. 81)
CUNHA, Helena Parente. Os gêneros literários In Teoria literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976 (Biblioteca Tempo Universitário, 42)
DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Ciclos temáticos na literatura de cordel. In Literatura Popular em Verso – Estudos. Tomo I. Rio de janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1973.
LESSA, Orígenes. A voz dos poetas. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1984. (Literatura popular em verso. Estudos. Nova série, n. 6)
LITERATURA POPULAR EM VERSO. Estudos. Tomo I. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1973. (Coleção de textos da Língua Portuguesa Moderna) __________. Antologia. Tomo I. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1973. (Coleção de textos da Língua Portuguesa Moderna)
__________. Antologia. Tomo II. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa; Campina Grande: Fundação Universidade Regional do Nordeste, 1976. (Coleção de textos da Língua Portuguesa Moderna)
__________. Antologia. Tomo III. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa; Campina Grande: Fundação Universidade Regional do Nordeste, 1976. (Coleção de textos da Língua Portuguesa Moderna)
__________. Antologia. Tomo IV. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa; Campina Grande: Fundação Universidade Regional do Nordeste, 1976. (Coleção de textos da Língua Portuguesa Moderna)
LUCIANO, Aderaldo. Literatura de cordel: uma poética para os heróis degolados. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003. (Dissertação de Mestrado)
__________. Literatura de cordel, literatura brasileira. In http://www.apropucsp.org.br/apropuc/index.php/revista-cultura-critica/31-edicao-no06/252-literatura-de-cordel-literatura-brasileira
__________. Literatura de cordel: visão e re-visão. Rio de Janeiro: UFRJ, 2009. (Tese de Doutorado)

3 comentários:

Marco Haurélio disse...

Quem do nosso romanceiro
Desconhece a trajetória,
Galga os degraus da soberba
Com cores de falsa glória,
Não merece ter seu nome
Eternizado na história.

A ilusão transitória
É o abrigo tumular.
Quem caminha nesta senda
Jamais irá encontrar
A essência verdadeira
Que brota do caminhar.

Aderaldo, você é diferenciado!"

claudio rodrigues disse...

Não discuto, nem tolero
discussão besta e amuada
quero só dizer a coisa
de outro jeito, versejada
A literatura é casa
da palavra que tem asa
bem escrita e bem falada.

O infeliz cordelista
escreve, sua às bicas
para prosear em versos.
Mas o mundo do escrita
segreda e lança o grito.
está feito o conflito:
"A voz deve ser erudita"

claudio rodrigues disse...

errata: Nos meus versos, onde se lê "segreda", leia-se "segrega". Temos dito.