27.8.09

aníbal beça (1946-2009)

“Em Palavra parelha, Anibal Beça afivela com moderação a persona do poeta-crítico — na derradeira seção, “Cantata de cabeceira”, conhecemos sua personalidade multifária. Ele pode ser valeriano, curtir um rock leminskiano, mudar de cor como um Rimbaud em fuga, etc. Mas, felizmente, no seu mundo-linguagem tem uns igarapés que levam às terras do Sem-fim do mundo amazônico, tem o “barro das metáforas” e o barro ribeirinho, e isto: “E assim me assumo pedra diferente/ Calcinado de múltiplas facetas:/ Concreto fui na práxis da sintaxe/ Viajei linossignos e haicais/ Namoro o instinto que Breton me deu/ E junto o sonho ao barro das metáforas”.
E, além de tudo — ou por isso mesmo —, o visto e o imaginado confluindo para a carne equívoca do poema como memória de eros, seduzido “arquivivo”: “Tatuagens tomadas ao acaso/(...) a dúvida vestindo/As várias personagens nesse enredo”. Nesse belo livro quarentão, Palavra parelha, conseguimos testemunhar em cada poema, em cada verso ou linossigno, a vida inteira do poeta Anibal Beça passada ao lado das palavras. Cosido, casado com elas.”



TEMPO DE BUSCA

Aníbal Beça


Procuro por uma porta
que me abra um tempo mais sereno.

Pressinto que ela está por aí, talvez próxima,
à toa nos meus caminhos vagos.

Entre uma passada e outra
me apresso em tocá-la,
e ela na sua calma surda de madeira
se afasta para voltar ao estado de árvore.

Sinto que também ela procura por alguma coisa
com algo de vento mastigando capim.

Vez por outra escuto um mugido
rangendo entradas e saídas
trompa pastoral se fechando em tardes.

Meus amigos me dizem que possuem sua chave,
que são íntimos no entrar e sair.
— seja pela parte da frente seja pela parte de trás —
sabem até do seu humor
pela leitura enrugada dos múltiplos nós,
mas não podem emprestá-la.

Temem que eu não volte para devolvê-la.

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