24.7.09

CARTA DE NENHUM LADO

Claudio Daniel

e a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto. senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. eu não tinha arma ao alcance. tivesse, também, não adiantava. com um pingo no i, ele me dissolvia. assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. sua casa ficava para trás da serra do mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o temor-de-deus. ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pelos, com o aspecto de um bicho.nenhuns olhos têm fundo; a vida, também não. dava-se de entre vinte-e-muitos e trinta anos; devia ter bem menos, portanto. miúdo, moído. mas concreto como uma anta. sofria como podia, nem podia mais desespero. o arrepio negro das árvores. o mundo entre as estrelas e os grilos. semiluz: sós estrelas. o assombrável! inútil resistir, inútil fugir, inútil tudo. se e se? a gente ia ver, à espera. com os soturnos pesos nos corações; um certo espalhado susto, pelo menos. eram horas precárias. sou homem de tristes palavras. eu já sofria o começo da velhice — esta vida era só o desmoronamento. e ele? por quê? devia de padecer demais. distâncias, passaram-se e passam-se, na retentiva da gente, irreversos grandes fatos — reflexos, relâmpagos, lampejos — pesados em obscuridade. tenho de me recuperar, desdeslembrar-me, excogitar — que sei? das camadas angustiosas do olvido. como vivi e mudei, o passado mudou também. alguém, antes de morrer, ainda se lembrava de que não se lembrava. então, o fato se dissolve. as lembranças são outras distâncias. eram coisas que paravam já à beira de um grande sono. flor, limite de transformação. linda já de outra espécie. só fiz que fui lá. com um lenço, para o aceno ser mais. eu estava muito mais no meu sentido. ao por fim ele apareceu, aí e lá, o vulto. estava ali, de grito. chamei umas quantas vezes. trevava. ele me escutou. ficou em pé. por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. e estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão. nessa água, que não pára, de longas beiras; e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

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(Poema ready made, construído com frases tiradas de contos de Guimarães Rosa. O recorte, montagem e colagem das frases é do poeta, tradutor e ensaísta Claudio Daniel. Mestre em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou, entre outros títulos, os livros de poesia Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001, prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista CULT), Figuras Metálicas (2005) e Fera Bifronte (2009), que recebeu a bolsa de criação literária da Funarte em 2008. É editor da revista de poesia e debates Zunái.)

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