22.5.09

Um poema de Luiz Felipe Leprevost

.
vamos chamar assim:
ela é uma metáfora que
adoece aqui comigo.
devo admitir, não servi para
degolar a sua nem a minha solidão.
não é de hoje que
vou até o fundo verificar quanto é
silente e silenciosa a
falta, essa musa do não.
é ela, não você, é a falta que
joga na minha cara
por birra, ou porque é burra
ou por essência, não sei
sei que esmurra meu rosto com
esses destroços de algo que
não acaba só porque já acabou.
salvo-me apenas
porque conheço o
gosto das lágrimas antes
delas se poluírem publicamente e
meu rosto virar um
abismo mastigador de
negros morcegos-bem-te-vis
de metralhados-mimimis
de adocicados diz que diz.
eu sei, fomos alegres destruindo.
estávamos juntos
mas a solidão já nos rondava.
está bem óbvio para mim
aquela alegria era
uma espécie de falta
com maquiagem de palhaço.



Luiz Felipe Leprevost (Curitiba, 1979), formou-se em Artes Cênicas pela CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), no Rio de Janeiro. É autor do livro/CD Fôlego (2002), e dos livros de bolso Tornozelos deitados (2005), Cecília roendo unhas [2005], ambos pela Kafka Edições Baratas, depois Ode mundana (2006, Medusa) e Pífio, monólogos dos psicotrópicos que não fazem mais efeito (2007, Kafka Edições), e ainda Inverno dentro dos tímpanos (2008, Kafka edições) e Barras antipânico e barrinhas de cereal (2009, Medusa). Fundou e escreve para o grupo Teatro de Ruído, que até o momento encenou suas peças Na verdade não era e O butô do Mick Jagger. Publica seus balbucios diários no blog www.notasparaumlivrobonito.blogspot.com.

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