DESMEMÓRIAS
X
desenhos de navios na areia meninas cítricas na arrebentação do cais insolação marítima planos evaporados no posto 5
XI
um frasco de sol discos de vinil na prateleira do Eldorado papel de parede colado ao contrário dias guardados nas listras do sofá-cama .
XII
no Gonzaga teias de galerias povoam a noite varal de vagalumes iluminando os letreiros.
XIII
recolhia as roupas como se habitasse um museu de mímicos e a memória fosse um ato mecânico seqüência de slides apagando- se distraidamente .
XIV
Avistei altiplanos na canção Trastevere , a cidade é moderna e traduz sua geometria em pequenas maquetes de ar enquanto as serpentinas reciclam as folias de outros carnavais . As marchinhas nunca ouviram Trastevere e cismam em romper a noite espalhando lamentos em alta freqüência
XV
Em tempos diversos voltas ao redor da estátua de Vicente de Carvalho se fosse hoje não seria bronze mas artifício holograma nada sólido como uma medula de pedra .
XVI
entre galerias misturando os nomes das lojas como se fossem quebra-cabeças de pernas pro ar
XVII
Fachadas anônimas cores extintas no enxame de ruas centro velho ilhado nas margens placas de trânsito
XVIII
Era o Clube Sírio e os cheiros de serpentina na fila pernas e máscaras euforia cílios cenário embalsamado
XIX
Cada ano um mapa inventa letra lembrança lugares contar os números das cartelas acumuladas
XX
três horas o caminho em breve será memória a fala hesita flores impossíveis calam a madrugada
XXI
Galeria Borba Gato e o descompromisso dos caminhos talvez uma pintura desbotada pelos passos , discos e vitrines de passagem .
XXII
Esse jardim improvável , mínimo istmo beirando o concreto retrato dos silos onde deitei a memória .
XXIII
Não foi possível apesar do sorriso da Dé e do caminho que passa sonolento pelo parque antigo até chegar na radial leste .
XXIV
Um aceno e os olhos aquáticos pelas avenidas rumo parque continental e a cidade chuvosa lembra o som de moonlight serenade espelhos no salão de algum grande hotel perdido nos mapas de amanda .
XXV
toda rua tem memória, letras embaralhadas no retrovisor , caminhos habituais se tornam raros , quem sabe destino nunca mais trilhado , mesmo que permaneçam como certos cheiros , imagens ou sons do asfalto
XXVI
No rádio tocava All for Reason e o Guarujá indicava possibilidades , tantos olhares na beira do mar e a noite refletida na arquitetura veloz dos carros e nada atrapalhava o dolce far niente o ritmo lento das pernas das meninas atravessando o tempo como quem inaugura monumentos de vento ao passar .
XXVII
menina no ponto de ônibus ajeita tiara círculo com luzes precárias anuncia loja de materiais elétricos restaurante árabe promoções em letras gigantes caminho setas para centro .
XXVIII
a cidade pausa movimentos natalinos vermelho repetido fulgor de luzes algo fora do bom tom slow motion das faces apressadas risonhas como bonecos com data de validade
XXIX
verão tímido cidade coberta pela chuva calçadas vazias na paulista cinema feliz natal imagens claustrofóbicas inundam a retina escadas galeria estranha a volta subterrânea olhares contam as estações
XXX
banzo de janeiro , ar salgado conserva lembranças de verões diversos , passos rápidos atravesso ruas e canais dissolvidos no sol , as casas passam numa monotonia de cores claras , o relógio da avenida anuncia a falta de pressa das horas
XXXI
do socorro rumo grajaú calor a pino avenida teotônio vilela centro comercial muita gente viro à direita rua dumont passeio monza do Luis balsa beira da billings ilha do bororé casas vendendo peixe obra gigante cimento do rodoanel volta almoço caseiro dona jandira seu santório trajes elegantes para as bodas de fon e soraya interlagos sol interdita ameaça de chuva padrinhos capo alexandre vivian veludo vermelho edgar terno e tênis presente daniele quebra-nozes fotos padre oriental destino natal dias solares
Diniz Gonçalves Júnior (São Paulo-SP) é o autor de Decalques (2008). Tem poemas publicados em sites, jornais e revistas de literatura, como Zunái, Germina, Suplemento Literário de Minas Gerais, O Casulo, Artéria 7, Artéria 8, Sígnica e Nóisgrande. Participou da exposição internacional Cinquième Biennale Internationale de la Photographie et des Arts Visuels de Liège (Bélgica), núcleo de Net art/Web art, pela revista Artéria 8. Escreve o blogue Desmemória.












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