Leia a seguir alguns trechos de O Jogo de Equivalências como aperitivo de entrada ao movimento final (?) dessa polêmica.
Tentei deixar claro, em inúmeros artigos, que minha crença na necessidade de contextualizar historicamente o debate poético e a leitura formal não se alia à tendência do que se chama, no Brasil, de leitura sociológica da literatura. Não espero simplificar o debate crítico, mas torná-lo mais complexo, por crer que uma leitura meramente formalista acaba por ser tão limitada quanto uma leitura meramente sociológica. [...]Quanto, especificamente, à polêmica em que se envolveu com o Érico Nogueira por causa de tais posições, Ricardo Domeneck argumenta:
As implicações est-É-ticas de um poema devem ser lidas a partir de seu trabalho formal e de suas escolhas literárias, uso de cada topus, construção sintática, etc. Neste aspecto, além do debate formal, acredito ser necessário hoje discutir material, função e contexto, ou seja: a escolha formal do poeta em seu manejo da materialidade da linguagem, a função que tal forma assume em seu trabalho e o contexto histórico em que este se insere. [...]
É legítimo que se queira salvaguardar a autonomia do poético e sua liberdade; porém, isto se manifesta muitas vezes como desculpa para os que simplesmente querem praticar a Literatura como jogo bem-pensante, esquecendo-se que os maiores poetas do passado jamais se abstiveram dos debates históricos de seu tempo [...].
O debate, contudo, está justamente neste dilema: o juízo de gosto, em sua subjetividade, parece frágil e passageiro, extramamente condicionado pelo indivíduo e sua relação com a coletividade; ao mesmo tempo, o juízo de valor, em sua suposta objetividade, foi posto em questão, acusado de mítico; esta é justamente minha posição, nada confortável: concordo que o mero juízo de gosto tem pouquíssima validade, mas também vejo a impossibilidade do juízo de valor objetivo, baseado em alguma essência poética atemporal, sem levarmos em conta as constricões históricas e individuais de cada poeta. Como escrevi no ensaio "O que é est-É-tica", ainda que haja realmente esta essência poética a garantir qualidade, o que permitiria um juízo de valor objetivo, ela é condicionada historicamente, a partir de cada leitura feita a cada novo momento histórico.O ensaio de Ricardo Domeneck é longo, mas muito afiado e esclarecedor, além de incluir aplicações concretas da sua abordagem na crítica de alguns sonetos. Vale a pena ler todo o texto no blog do autor. Esse é certamente um dos debates mais densos da poesia de hoje na internet brasileira.












0 comentários:
Postar um comentário