12.5.09

Inferências

Priscila Lopes


Eu tenho um pônei quase sem vida
a brincar no meu jardim.
Toda beleza de sua crina
se deve à coloração - seu pêlo é
ralo reto ruim.
Às vezes coloca a cabeça em minha janela
e espia meus quatro cantos do mundo.

(uma senhora estende suas roupas
no ritmo da brisa
de Glen Miller)

O silêncio me espreita enquanto
cruzo caras e bocas.

Sei que me aguarda um homem
- um desconhecido meu -
e uma criança sádica
- nasceu torta -
mas meu pônei estampa pulos em muros
inscritos em signos, falsos teoremas.

O ano de 2007 bordado em minha blusa
branca, escurece-me
a face mordida;
e todo gesto novo que invento,
e toda maquiagem com que me preencho
data de setembro de 1983.

Meu corpo é mudo feito um pônei cinza.



Priscila Lopes (Brasília/Florianópolis, 1983) é graduada em Relações Internacionais e cursa MBA em Comércio Exterior. Possui contos, crônicas e poemas publicados em antologias da Câmara Brasileira de Jovens Escritores, da Editora DeLeon e Editora Mar de Idéias, além de publicações na Revista Poité (UFSC). Realizou duas exposições de poesia no espaço cultural da Assembléia Legislativa de Santa Catarina. Selecionada com o conto O poeta esculpido no 6o Conto e Poesia do Sinergia. Organizadora da coletânea XXI POETAS DE HOJE EM DIA(NTE), editada pela Letras Contemporâneas (2009). Administra o blog Cinco Espinhos.

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