A postagem gerou uma pronta resposta de Érico Nogueira, para quem neste debate repete-se aquela diferença entre a política da fé e a política do ceticismo:[...] O ponto principal, e do qual não discordo, é que o difícil sempre foi e sempre será fazer algo relevante, algo que presta. Mas é justamente esta a discussão, o debate, a querela, que parece reiterar-se contínua e infindavelmente desde Platão, segundo Nogueira, passando por Calímaco, Catulo, ganhando corpo teórico entre os literatos franceses do século XVII: como saber o que presta? Como saber o que é relevante?
[...] O que parece ocorrer repetidamente é um debate entre duas tendências críticas:
§- de um lado, há os poetas que acreditam na autonomia do poético perante a História e suas convoluções recorrentes. Para estes poetas, a tradição seria uma espécie de caixa de ferramentos acumulativa, da qual o poeta pode tomar "formas" para seu uso pessoal, que se faz funcional em qualquer momento histórico, tendo sua validade estabelecida e seus parâmetros de qualidade assegurados pela maestria de poetas anteriores.
§- por outro lado, temos os poetas que acreditam que as formas acumuladas pela tradição seriam soluções apresentadas por poetas para problemas específicos e condicionados por seus momentos históricos, e que estas técnicas formais servem aos poetas contemporâneos (em cada momento, seja o último século antes de Cristo ou 2009) como processos e procedimentos, dos quais podem aprender se souberem a que perguntas estas formas apresentam-se como respostas, exigindo que dominem a forma e conheçam o contexto em que surgiram.Portanto, aqui reside parte de minha discordância quanto à resposta de Érico Nogueira, por exemplo, mas também o ponto em que podemos procurar atingir maior clareza de propósitos.
[...] Para muitos poetas, basta voltarmos aos mestres do passado, aprender com eles suas técnicas, emulá-los. Para outros, não se trata de emulação, mas de aprendizagem de métodos.
Os dois caminhos de que vimos tratando, representados pela poética de Domeneck, e pela minha, parecem-me partir de pólos magnéticos distintos e até mesmo opostos. Ricardo aposta na diferença. Este tempo é diferente do que passou; este lugar de outro qualquer; este indivíduo de todos os outros. É natural, portanto, que confie na capacidade humana de operar com esta diferença, de levá-la, em política como em poética, a ser o que deve ser: um índice de particularização. Sua posição faz-nos atentar no particular, no inusitado, na possibilidade do realmente novo. É imprescindível, senhores, que haja uma poética assim: caso contrário, não haveria Baudelaire, não haveria Pound.Para uma melhor compreensão dos argumentos que sustentam cada uma dessas posições, recomendamos fortemente a leitura na íntegra dos ensaios linkados nesta postagem.
Quanto a mim, subscrevo o adágio latino: Homo sum: nihil humani a me alienum puto. Ou seja: “Sou homem: não julgo nada do que é humano como alheio a mim”. Operando, pois, sob o signo da semelhança, busco nos tempos, nos lugares, nos indivíduos e nos poemas aquilo que me parece uni-los, i.e., uma possível (e precária) “universalidade”. Em crítica como, sobretudo, em poesia, busco chamar a atenção para as repetições. Acho que o velho bicho homem é quase sempre o mesmo, isto é, quase nada. Sem esta postura, não haveria Leopardi, não haveria Eliot.












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