BALANÇO
A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.
Antonio Cicero (Rio de Janeiro, 1945) é poeta, filósofo e compositor, parceiro, entre outros, de Marina Lima, Adriana Calcanhoto, João Bosco e Lulu Santos. É autor do ensaio O mundo desde o fim (1995) e dos livros de poesia: Guardar (1997, Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira) e A cidade e os livros (2002). Organizou, em parceria com Waly Salomão, o livro de ensaios O relativismo enquanto visão do mundo (1994) e, junto com o Eucanaã Ferraz, Nova antologia poética de Vinícius de Moraes (2003). Seu livro mais recente, Finalidades sem Fim (2006), é uma coletânea de ensaios em que desenvolve uma reflexão unificadora e sistemática sobre poesia e arte.












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